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O Brasil saiu da Copa. O futebol brasileiro precisa encarar as perguntas que vem adiando há anos.

In Notícias
julho 06, 2026
Brasil perde para Noruega e da fim ao sonho do Hexa

O apito final da eliminação brasileira na Copa do Mundo de 2026 encerrou mais uma campanha frustrante da Seleção. Nas horas seguintes, a discussão seguiu um roteiro conhecido. O treinador virou alvo, alguns jogadores foram responsabilizados, as redes sociais se encheram de críticas e a procura por culpados ocupou espaço maior do que a análise sobre o futebol apresentado.

A derrota merece uma leitura mais profunda.
A Seleção Brasileira chegou ao Mundial carregando um peso que não nasceu nesta Copa. São mais de duas décadas sem conquistar o principal torneio do futebol, período em que outras seleções reformularam suas estruturas, profissionalizaram suas federações, investiram em projetos de longo prazo e consolidaram uma identidade dentro de campo. O Brasil continuou revelando alguns dos melhores jogadores do mundo, mas passou a conviver com um problema cada vez mais evidente: a dificuldade de transformar talentos individuais em uma equipe consistente.

Essa transformação não aconteceu por acaso.
Nos últimos anos, a Confederação Brasileira de Futebol atravessou sucessivas crises institucionais. Mudanças de comando, disputas judiciais, questionamentos sobre governança e constantes alterações na condução da entidade impediram que o futebol brasileiro mantivesse uma linha contínua de planejamento. Técnicos chegaram e saíram antes que seus projetos amadurecessem. Ideias foram interrompidas antes de serem avaliadas. O futebol passou a viver de ciclos curtos, quando precisava de estabilidade.

Enquanto isso, o ambiente econômico do esporte mudou de forma acelerada.
O futebol brasileiro nunca recebeu tantos investimentos privados. Os contratos de patrocínio cresceram, os direitos de transmissão alcançaram cifras bilionárias e um novo protagonista passou a dominar o mercado esportivo: as empresas de apostas.

Basta acompanhar uma transmissão de futebol para perceber essa mudança. As marcas das casas de apostas aparecem nos uniformes, nas placas ao redor do gramado, nas entrevistas, nos programas esportivos, nos conteúdos produzidos por influenciadores e nos intervalos comerciais. Durante a Copa do Mundo, elas ocuparam uma parcela significativa da publicidade exibida pela televisão brasileira, consolidando um movimento que já vinha crescendo nos campeonatos nacionais.

Esse cenário não autoriza ninguém a afirmar que as apostas influenciaram o desempenho da Seleção dentro de campo. Não existe evidência pública que sustente essa conclusão. O debate relevante segue outro caminho.

Quando uma atividade econômica passa a ocupar posição central no financiamento do futebol, ela inevitavelmente influencia o ambiente em que esse futebol é administrado. O centro das discussões se desloca. O mercado acompanha indicadores financeiros, audiência, exposição de marca, contratos comerciais e retorno para patrocinadores. Tudo isso faz parte da indústria do esporte. O risco aparece quando essas prioridades passam a ocupar mais espaço do que a formação de atletas, o desenvolvimento técnico, a qualidade dos campeonatos e a construção de um projeto esportivo duradouro.

O futebol brasileiro passou a produzir receitas em velocidade maior do que produziu mudanças estruturais.

Os clubes arrecadam mais. O mercado publicitário investe mais. Os direitos de transmissão valem mais. As plataformas digitais movimentam milhões de pessoas todos os dias. O dinheiro nunca circulou com tanta intensidade.

O desempenho esportivo da principal equipe do país não acompanhou essa evolução.
Essa distância precisa ser debatida.
O Brasil continua exportando jogadores para os maiores clubes do mundo. A qualidade técnica permanece reconhecida internacionalmente. O problema surge quando esses atletas chegam à Seleção carregando experiências completamente diferentes, metodologias distintas e pouco tempo para formar uma equipe capaz de competir com adversários que desenvolvem seus projetos há muitos anos.

A derrota para a Noruega evidenciou esse cenário. O adversário apresentou organização, disciplina tática, intensidade física e confiança coletiva. O Brasil respondeu com dificuldade para controlar o jogo, criar alternativas e reagir diante das adversidades. A diferença não esteve apenas nos jogadores. Ela apareceu na forma como cada equipe ocupava o campo, interpretava os espaços e executava um plano construído muito antes daquela partida.

O futebol moderno cobra planejamento.
Nenhuma seleção conquista uma Copa apenas porque possui atletas talentosos. Grandes campanhas são resultado de estruturas sólidas, gestão eficiente, continuidade e capacidade de manter um projeto acima das mudanças políticas.

Essa discussão também alcança a forma como o futebol é apresentado ao público.

A cobertura esportiva dedica horas às especulações sobre contratações, negociações, patrocinadores e movimentações do mercado. O espaço reservado para discutir gestão esportiva, governança, categorias de base, calendário e desenvolvimento técnico ainda é pequeno diante da importância desses temas. O torcedor recebe diariamente informações sobre cifras milionárias, novos contratos e campanhas publicitárias, mas encontra poucas oportunidades para compreender como funciona a administração do esporte que acompanha desde a infância.

A eliminação da Seleção abre uma oportunidade rara.
Ela obriga dirigentes, clubes, imprensa e torcedores a olharem para além do resultado. O futebol brasileiro construiu uma história que continua despertando admiração em qualquer lugar do mundo. Essa história, porém, não garante competitividade permanente. Prestígio não substitui planejamento. Tradição não corrige problemas administrativos. O peso da camisa nunca compensou a ausência de um projeto.

O Brasil continuará revelando grandes jogadores. Essa nunca foi a principal preocupação.
A questão que permanece aberta é outra.
Quem está construindo o futebol brasileiro dos próximos vinte anos?A resposta não será encontrada na entrevista coletiva do treinador nem na análise de um único jogo. Ela está espalhada pelas decisões tomadas diariamente dentro das salas onde o futuro do futebol nacional é planejado, financiado e administrado.
Quando a próxima Copa começar, a discussão provavelmente voltará para a escalação, o esquema tático e os nomes convocados. Até lá, o trabalho mais importante acontecerá longe dos estádios.
É justamente nesse período silencioso que uma seleção campeã começa a ser construída.

Ou deixa de ser.

Presidente da ABTCP / Publicações: 10

Presidente ABTCP - Publicitário e Estrategista Político