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Primeiro espaço para falar tudo da luta D’Elas

In Espaço D'Elas, Notícias
junho 04, 2026

Paradoxo ambulante.

É assim que inicio a primeira (de muitas colunas) com a definição profética (e perfeita) de uma professora de Língua Portuguesa que tive.

Vou tratar da jornada feminina no mercado de trabalho de forma pessoal e coletiva. Obviamente vou considerar o recorte de todas as comunicadoras. Que estão inseridas no cenário tenebroso da Pejotização (foco principal que a ABTPC vai combater).

Sejam elas (e nós) publicitárias, jornalistas, escritoras, designers, editoras e revisoras de textos, relações públicas, assessoras de imprensa, fotógrafas, filmakers, produtoras do audiovisual, cerimonialistas, ilustradoras etc. Hora de pegar ódio que o mundo nos trata e usar de combustão, para fazer uma grande revolução. Mistura de alquimia, estratégia e inteligência.

Minha análise será feita com cuidado, escrita afiada (até mesmo agressiva), realista e informativa, porque dados para provar nosso ponto de uma realidade cruel importam (e muito). Já aviso de antemão: quem quer ler texto ameno que busque romances! Aqui, o papo (e o tom) será reto, lúcido e combativo.


Paradoxo Corporativo

Por que abri o texto com “Paradoxo ambulante”? Porque é o que sou, e o que o cenário do mundo corporativo também é. Só que a gente precisa se virar nesse paradoxo. Que é extremamente desumano, com campanha bonita para enganar as pessoas iludidas.

Só por sermos mulheres, temos ideias rebaixadas, somos desvalorizadas, silenciadas. Quando solteiras, passamos por assédio moral só pelo fato de não estar dentro de estereótipos de feminilidade (de ser “dócil”, de boa aparência e que é solícita demais).

E sexual, porque na mente doentia dos executivos (principalmente daqueles que têm muitos anos de empresa ou cargos de liderança) “mulher muito simpática está a fim de algo a mais”.

Fora o tal do mansplaining (ou “homem palestrinha”), o manterrupting (homem que não quer dividir o espaço) e a apropriação descarada de discurso, ideias e até mesmo, de projetos completos. Ah, e não pode reclamar! Senão você “pesa a vibe”, “gera problema” e “causa muito”.


Motherhood Penalty: punição pela escolha da Maternidade

Já nos casos das profissionais que são mães, automaticamente elas (ou vocês) têm menos oportunidades, crescem menos (ou são diminuídas), só ficam na vontade de ser reconhecidas e ainda correm risco. De não terem rede de apoio. De se sobrecarregarem, e ainda ouvirem que “é sua obrigação”, “você precisa dar conta de tudo”. De ser demitidas. Bem quando voltam da licença maternidade. Antes de trazer dados sobre esse cenário de terror, trarei um relato que observei enquanto estava em uma agência de porte médio (na contração PJ, só 2 dias presenciais, que eram horríveis).

Início de maio. Aquele momento que todos se lembram das mães (e acho que só de maneira vazia, pelo apelo comercial). Porque enquanto sofria de stalking e recebia apoio da minha gestora (que voltava de sua licença maternidade), tive que lidar com a sua demissão. Fiquei arrasada quando meu líder comunicou isso em uma reunião de sexta-feira (no dia de home office). Chorei muito ouvindo todo o álbum recém lançado de Funk Generation. Aquilo me deixou com raiva o dia inteiro. Porque teria um evento para levar as mães de todos os colaboradores na agência, para “celebrar o seu dia” (em plena quinta-feira, antes do fatídico domingo).

Fiquei com tanto nojo, tristeza e revolta, que decidi me demitir no jeito CLT que conheço, com a carta a punho (nem precisava hahaha). Mas só para mostrar que estava cansada e pistola com toda essa situação. Foi o fim da picada.

Agora, vou entrar com os dados a respeito de como as mães são extremamente maltratadas e desvalorizadas no mercado de trabalho.

A maternidade é uma barreira estrutural desenhada para nos excluir. Dados do estudo inédito da FESA Group revelam que 59,1% das mães admitem que suas carreiras foram impactadas pela maternidade, mas o buraco é muito mais embaixo. E ainda: a percepção de 86,1% das mulheres concordam que o modelo ideal de liderança ainda é baseado em padrões masculinos. Para 66,1% das mulheres, a cultura organizacional é o principal entrave para subir na carreira. Enquanto a paternidade é premiada com prestígio, nós enfrentamos um “duro pedágio”: 79% de nós já sofremos ou testemunhamos assédio moral ou sexual. É um cenário onde a desigualdade é a regra, porque 79,7% das mulheres confirmam que não há igualdade no acesso a cargos de liderança.

Viu, que realidade nós comunicadoras temos que enfrentar todos os dias?
Pois é. Imagina isso sendo potencializado (de maneira ruim) umas 200 vezes.
Tcharam! Essa camada extra de problematização explode com a Pejotização.

Além das cobranças e do que foi pontuado acima, temos que lidar com a falta de direitos, de suporte e sem perspectiva de futuro (tchau aposentadoria e afins). É ser cobrada como CLT sem hora para acabar o trabalho (e bater ponto), sem banco de horas e sem pagamento por hora extra, sem direito de cuidar da própria saúde (ficar doente “é crime”), por uma merreca mensal. Só falta o chicote e o cabresto. E ainda temos que ser “gratas” por isso. Aff, é uóh!

Bom, vamos ver mais dados novamente? Só que agora, de como a Pejotização afeta as comunicadoras.


Pejotização: escravidão do Século XXI

A ideia romantizada de “modernização” que o mercado tanto vende é na verdade, uma fraude descarada. Não existe empreendedorismo quando você não precifica o próprio trabalho e assume todos os riscos, enquanto o lucro vai para o bolso de terceiros. A Pejotização é o chicote do século XXI, e foi desenhada para nos tornar descartáveis.

De acordo com dados do Ministério do Trabalho, há um rombo de R$ 61,42 bilhões na Previdência e R$ 24 bilhões no FGTS entre 2022 e 2024, fruto direto de 4,8 milhões de trabalhadores demitidos da CLT para o abismo do PJ. É a transferência ilegal de custos e riscos para a nossa conta, criando um ambiente onde cumprir a lei vira desvantagem competitiva.

Não se engane com a promessa de autonomia! Isso é só uma máscara que esconde a subordinação indiscriminada. Enquanto o discurso corporativo nos vende como “parceiras”, na prática é uma precarização total de contratação. Ou seja, um projeto de exclusão sistêmica que atinge pessoas em situação mais vulnerável (como a população pobre, negra e de mulheres que são mães), esvaziando nosso direito à proteção social e jogando a responsabilidade pelo fracasso econômico para o nosso colo.

Pejotização não é evolução contratual, é o desmonte do nosso futuro. É hora de parar de aceitar
esse rótulo de “empreendedora” para ignorar o fato de que você é apenas mais uma trabalhadora vulnerável, sem direito a ficar doente, ter férias, licença maternidade ou sonhar com uma aposentadoria digna.

Mas, calma! Podemos ter uma dose de inspiração, com as histórias de algumas profissionais que venceram o preconceito e abriram caminho para que hoje, a gente possa continuar o legado delas (e lutar pelo que é nosso, por direito e dever).


Legados que nos inspiram

A história da comunicação não foi escrita apenas pelos homens da década de 50, que ditavam como a gente deveria se vestir e pensar em revistas que eles mesmos produziam. A gente sempre esteve aqui, resistindo.

De Nísia Floresta, a mãe do feminismo brasileiro, que já peitava o sistema em 1832; a Maria Josefa Barreto, a primeira jornalista do Brasil, que em 1833 não teve medo de usar a tipografia de seu pai adotivo para o embate político, ao publicar o jornal legalista Belona Irada Contra os Sectários de Momo, que ia contra as ideias liberais dos farroupilhas; até Ana Couto, que com sua visão estratégica em branding mostra que o design e a gestão de marca, quando feitos por mulheres, transformam o mindset de gigantes. Elas não pediram licença, só conquistaram seu (e nosso) espaço.

Ufa! Acho que deu um pouco de alívio, não é mesmo?
De ver essas histórias, e de saber que a gente não está tão sozinha assim.
A luta é árdua (e será longa), mas é muito necessária.

Para ver mais textos sobre esse tema e ficar por dentro do acontece na movimentação contra
a Pejotização, acompanhe minha coluna aqui no Portal ABTCP!

Hora de uni-rmos, Comunicadoras.

Um beijo, um abraço e fiquem bem! 😀