Marketing ganha espaço nas empresas, mas valorização dos profissionais segue em ritmo desigual

Contradições de um mercado tão rico e tão pobre.

Empresas reconhecem o papel estratégico da comunicação para ampliar receitas e fortalecer marcas, enquanto trabalhadores convivem com salários pressionados, pejotização e aumento da carga de responsabilidades.

O marketing nunca ocupou um espaço tão estratégico dentro das empresas. Em diferentes setores da economia, executivos passaram a tratar a comunicação como uma ferramenta capaz de fortalecer marcas, ampliar participação de mercado e impulsionar resultados financeiros. A percepção de que investir em marketing gera retorno deixou de ser uma tendência e passou a integrar as decisões de negócios das grandes corporações.

Em entrevista ao Meio & Mensagem, o Chief Marketing Officer (CMO) da General Motors afirmou que o marketing funciona como “o óleo entre as engrenagens”, destacando a capacidade da área de conectar produtos, consumidores e resultados para o negócio.

A afirmação reforça um entendimento que vem sendo consolidado nos últimos anos: a comunicação deixou de ocupar uma posição acessória e passou a influenciar diretamente indicadores financeiros, reputação institucional e crescimento das empresas.

O reconhecimento, no entanto, expõe uma contradição que há anos faz parte da rotina dos profissionais do setor.

Enquanto o marketing conquista espaço nas mesas de decisão e passa a ser tratado como um dos principais ativos estratégicos das organizações, milhares de trabalhadores da comunicação continuam enfrentando salários comprimidos, equipes reduzidas, acúmulo de funções e modelos de contratação cada vez mais flexíveis.

Dados do mercado mostram que a expansão da transformação digital ampliou significativamente a demanda por profissionais especializados em branding, conteúdo, mídia, inteligência de dados, performance e criação. Ao mesmo tempo, empresas passaram a concentrar mais atividades em equipes menores, aumentando a pressão por produtividade e velocidade nas entregas.

Outro fenômeno que acompanha essa transformação é o crescimento das contratações por pessoa jurídica.

Embora a legislação brasileira permita esse modelo quando existe autonomia na prestação do serviço, entidades representativas de trabalhadores e especialistas em Direito do Trabalho alertam para o aumento de contratos em que profissionais atuam de forma permanente, subordinada e integrada à estrutura das empresas, mas sem acesso às garantias previstas na Consolidação das Leis do Trabalho (CLT).

A discussão ganhou ainda mais relevância após o Supremo Tribunal Federal iniciar o julgamento do Tema 1389, que deverá definir parâmetros sobre a competência da Justiça do Trabalho, o ônus da prova e os critérios para análise de contratos de pejotização apontados como fraudulentos.

Para representantes de entidades ligadas ao setor da comunicação, o avanço desse modelo alterou profundamente as relações de trabalho dentro das agências, departamentos de marketing e produtoras de conteúdo.

A lógica empresarial passou a reconhecer o marketing como investimento indispensável para o crescimento das marcas. A valorização econômica da atividade, entretanto, nem sempre foi acompanhada por melhores condições de trabalho para os profissionais responsáveis por construir esse resultado.

Nos últimos anos, tornou-se comum encontrar equipes responsáveis simultaneamente por planejamento, criação, gestão de redes sociais, produção audiovisual, análise de dados e relacionamento com clientes. Em muitos casos, as responsabilidades aumentaram em velocidade superior à evolução salarial.

Especialistas apontam que esse cenário também está relacionado à intensa competitividade do setor, à digitalização acelerada dos processos e à busca constante por redução de custos operacionais.

Nesse contexto, parte das empresas passou a utilizar contratos de prestação de serviços como forma de ampliar flexibilidade administrativa. A prática, quando aplicada dentro dos limites legais, faz parte da dinâmica de diversos segmentos da economia. O debate surge quando a contratação por CNPJ reproduz características típicas de vínculo empregatício, tema que permanece em análise pelo Supremo Tribunal Federal.

A valorização do marketing como instrumento de geração de receita também amplia a discussão sobre a valorização de quem produz esse resultado.

Campanhas publicitárias, posicionamento de marca, relacionamento com consumidores e estratégias digitais dependem diretamente da atuação de profissionais especializados. São eles que transformam planejamento em execução e convertem investimentos em resultados de mercado.
Para entidades representativas dos trabalhadores da comunicação, esse reconhecimento precisa ultrapassar os indicadores financeiros apresentados pelas empresas.

A discussão envolve remuneração compatível com a responsabilidade exercida, condições adequadas de trabalho, respeito aos limites da jornada, segurança jurídica nas formas de contratação e reconhecimento da comunicação como atividade essencial para o desenvolvimento das organizações.

O crescimento do marketing dentro das empresas representa uma mudança importante na forma como a comunicação é percebida pelo mercado.
A permanência de relações de trabalho marcadas por precarização, alta rotatividade e insegurança contratual demonstra, entretanto, que a valorização da atividade ainda não alcançou, na mesma intensidade, os profissionais que sustentam esse crescimento.

A força de uma marca depende de investimento, planejamento e criatividade. Depende, principalmente, das pessoas que transformam estratégia em resultado.

Presidente da ABTCP / Publicações: 10

Presidente ABTCP - Publicitário e Estrategista Político