Entre a liberdade e a insegurança: por que a comunicação se divide entre CLT e PJ

tem quem goste do modelo PJ de contratação, tem quem prefira o modelo CLT, mas uma coisas estamos certos, o trabalhador não pode perder sempre.

Enquanto empresas ampliam as contratações por pessoa jurídica, profissionais da comunicação vivem um mercado dividido entre a promessa de autonomia e a perda de garantias trabalhistas. O debate já não se resume ao tipo de contrato, mas ao modelo de trabalho que está sendo construído no Brasil.

A discussão sobre CLT e pessoa jurídica deixou de ser apenas uma escolha contratual. Ela passou a definir a forma como milhares de profissionais constroem suas carreiras, organizam sua vida financeira e projetam o próprio futuro.

Na comunicação, publicidade, marketing, audiovisual e produção de conteúdo, a contratação por CNPJ deixou de ser exceção. Em muitas empresas, tornou-se a principal forma de ingresso no mercado. A justificativa costuma ser a mesma: redução de custos, maior flexibilidade e liberdade para negociar remuneração.

Na prática, a realidade é mais complexa. Parte dos profissionais escolhe esse modelo porque encontra vantagens reais. Outra parte aceita porque não encontra alternativa.

O que leva um profissional a escolher o modelo PJ

A contratação como pessoa jurídica pode representar ganhos financeiros para profissionais experientes, principalmente aqueles que prestam serviços para mais de um cliente, definem a própria agenda e têm autonomia para negociar valores.

Sem os descontos da folha de pagamento, muitos conseguem ampliar a renda mensal e administrar o próprio negócio.

Também existe quem veja na pejotização uma oportunidade de empreender.
Consultores, diretores de criação, fotógrafos, videomakers, designers e estrategistas costumam atuar simultaneamente para diferentes empresas, característica que aproxima esse modelo da prestação de serviços prevista pela legislação. Nesses casos, o CNPJ atende a uma necessidade legítima do mercado.

Quando a escolha deixa de existir

O problema começa quando a contratação por pessoa jurídica deixa de ser uma opção e passa a ser uma exigência.

Em boa parte das vagas publicadas atualmente para o setor de comunicação, a contratação via CNPJ aparece como requisito.
O profissional trabalha todos os dias para a mesma empresa.
Cumpre horário. Participa de reuniões obrigatórias.Recebe ordens diretas.Segue metas estabelecidas.
Utiliza equipamentos da empresa. Integra equipes permanentes.
Mas juridicamente continua sendo tratado como prestador de serviços.É justamente essa situação que alimenta milhares de ações na Justiça do Trabalho e motivou o Supremo Tribunal Federal a discutir o Tema 1389, que deverá estabelecer critérios para analisar casos de pejotização apontados como fraudulentos.

O custo invisível

A comparação entre CLT e PJ costuma ser reduzida ao salário líquido.Essa conta ignora uma série de fatores. O trabalhador contratado pela CLT tem férias remuneradas, décimo terceiro salário, recolhimento ao INSS, Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS), proteção em caso de afastamento por doença, seguro-desemprego quando preenchidos os requisitos legais e uma série de direitos previstos na legislação.

O profissional PJ precisa organizar essas reservas por conta própria. Férias significam interrupção da renda. Doença pode representar ausência de faturamento. A aposentadoria depende do recolhimento individual. A estabilidade financeira passa a depender da continuidade dos contratos. Para profissionais com alta remuneração e carteira diversificada de clientes, esse modelo pode funcionar. Para quem depende exclusivamente de um contratante, a lógica muda completamente.

O impacto sobre o mercado

A expansão da pejotização alterou profundamente a dinâmica da comunicação.
Empresas reduziram custos fixos.
Equipes tornaram-se mais enxutas.
A rotatividade aumentou. Projetos passaram a ser montados de acordo com a demanda.
Ao mesmo tempo, cresceu a sensação de instabilidade entre trabalhadores.
Sem vínculos permanentes, muitos profissionais evitam férias, prolongam jornadas e aceitam múltiplos contratos para manter a renda.
A consequência aparece na dificuldade de retenção de talentos.
Agências e departamentos de marketing convivem com equipes cada vez mais jovens e carreiras cada vez mais curtas. Profissionais deixam o mercado em busca de maior previsibilidade financeira ou migram para áreas com melhores condições de trabalho.

O debate precisa amadurecer

Transformar CLT e PJ em lados opostos simplifica uma discussão muito maior.
A contratação por pessoa jurídica é legal e faz parte da economia brasileira.
O contrato de trabalho também continua sendo um instrumento essencial de proteção social.
O desafio está em estabelecer limites claros entre autonomia profissional e relação de emprego.

Nem todo PJ é vítima de fraude.

Nem toda empresa utiliza esse modelo para reduzir direitos.
Ao mesmo tempo, ignorar que milhares de trabalhadores exercem funções típicas de empregados sem acesso às garantias previstas em lei significa fechar os olhos para uma realidade presente em diversos segmentos da comunicação.

O futuro da profissão

O mercado da comunicação mudou. As formas de contratação mudaram. A tecnologia mudou.

O trabalho remoto ampliou possibilidades.
O profissional ganhou novas ferramentas e novos espaços de atuação.
Mas uma questão permanece aberta.
Como construir um mercado competitivo sem transformar a insegurança em modelo de negócio?
A resposta não será encontrada apenas na Justiça ou na legislação.
Ela passa pela responsabilidade das empresas, pela organização dos trabalhadores e pela capacidade do setor de reconhecer que criatividade, inovação e resultado dependem, antes de tudo, de relações de trabalho sustentáveis.
O debate entre CLT e PJ continuará existindo.A diferença é que ele já não pode ser conduzido apenas pela lógica da redução de custos.
Também precisa considerar aquilo que sustenta qualquer atividade econômica: o trabalho humano.

Presidente da ABTCP / Publicações: 10

Presidente ABTCP - Publicitário e Estrategista Político