Brasil registra o maior número de afastamentos por transtornos mentais da história. Para profissionais da comunicação e publicidade, jornadas extensas, hiperconectividade e pressão permanente transformaram o adoecimento em um problema estrutural.
A crise de saúde mental deixou de ser um alerta para se tornar um dos principais desafios do mercado de trabalho brasileiro.
Dados do Ministério da Previdência Social mostram que 2024 registrou o maior número de afastamentos por transtornos mentais da série histórica. Foram mais de 440 mil benefícios concedidos por doenças como ansiedade, depressão, transtornos relacionados ao estresse e outros problemas de saúde mental. O crescimento foi de aproximadamente 67% em relação a 2023, consolidando um recorde nacional.
Os números revelam uma mudança profunda na relação entre trabalho e adoecimento.
A ansiedade liderou os afastamentos, com 141.414 benefícios concedidos. Em seguida aparecem episódios depressivos, com 113.604 casos, transtorno depressivo recorrente, transtorno afetivo bipolar e reações ao estresse grave.
Embora os dados oficiais não façam um recorte específico para trabalhadores da comunicação e publicidade, especialistas apontam que profissões submetidas à alta pressão por resultados, prazos curtos, disponibilidade permanente e intensa carga cognitiva estão entre as mais vulneráveis ao sofrimento psíquico.
É justamente esse o cenário vivido por grande parte do setor.
Um mercado que nunca encerra o expediente
A publicidade, o marketing, o audiovisual, o jornalismo e a comunicação digital passaram por uma transformação acelerada nos últimos anos.
O avanço das plataformas digitais eliminou fronteiras entre expediente e vida pessoal.
A comunicação deixou de acontecer apenas durante o horário comercial.
Hoje ela acontece vinte e quatro horas por dia. Campanhas precisam responder em tempo real.
Redes sociais exigem atualização constante. Crises surgem sem aviso. Clientes esperam respostas imediatas. O celular passou a funcionar como extensão do ambiente de trabalho.
A soma desses fatores criou um modelo em que a disponibilidade permanente passou a ser interpretada como compromisso profissional.
Para psicólogos e pesquisadores da área do trabalho, essa hiperconectividade prolonga a ativação do organismo e reduz os períodos necessários para descanso físico e mental, aumentando o risco de adoecimento.
O problema vai além da produtividade
Durante muito tempo, saúde mental foi tratada como questão individual.
O aumento dos afastamentos mostra que essa interpretação já não explica o tamanho do problema.
A própria atualização da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1) passou a exigir que empresas identifiquem e gerenciem riscos psicossociais no ambiente de trabalho, incluindo fatores como excesso de cobrança, organização do trabalho, assédio e jornadas que favoreçam o adoecimento.
A mudança representa uma alteração importante na forma como o poder público enxerga a relação entre trabalho e saúde mental.
O foco deixa de ser apenas o tratamento do trabalhador adoecido. Passa também pela prevenção.
Comunicação produz valor. O trabalhador paga a conta.
O mercado da comunicação ocupa hoje uma posição estratégica dentro das empresas.
Marcas investem milhões em reputação, posicionamento, publicidade, relacionamento com consumidores e inteligência de mercado.
A criatividade tornou-se um ativo econômico.
O conhecimento passou a gerar vantagem competitiva.
Ao mesmo tempo, profissionais relatam equipes reduzidas, acúmulo de funções, jornadas prolongadas e pressão crescente por resultados.
Em diversos segmentos, também cresce a contratação por pessoa jurídica para atividades permanentes, tema que hoje é discutido pelo Supremo Tribunal Federal no julgamento do Tema 1389.
A combinação entre metas agressivas, insegurança contratual e disponibilidade permanente cria um ambiente de trabalho marcado por tensão constante.
Ainda que não existam estatísticas oficiais específicas para a comunicação, entidades representativas da categoria afirmam que esses fatores aparecem com frequência entre os principais relatos de sofrimento apresentados por profissionais do setor.
Uma crise que deixou de ser invisível
Os números nacionais mostram que o problema deixou de ser pontual.
Em apenas dez anos, o Brasil mais do que dobrou o número de afastamentos por transtornos mentais relacionados ao trabalho.
A discussão já não se limita ao campo da saúde.
Também envolve produtividade, relações de trabalho, segurança jurídica, organização das empresas e sustentabilidade das carreiras.
Para a ABTCP, a comunicação precisa participar desse debate de forma mais direta.
Não basta defender inovação, criatividade e impacto de mercado.
Também é necessário discutir jornadas, formas de contratação, respeito aos limites do trabalhador e responsabilidade das empresas na construção de ambientes saudáveis.
A valorização da comunicação não pode ser medida apenas pelo crescimento das marcas.
Ela também precisa ser medida pela capacidade de preservar quem faz essas marcas existirem.