A luta pela valorização do trabalho essencial e a informação livre
Enquanto o capital celebra seus lucros recordes, quem carrega o mundo nas costas são os trabalhadores essenciais – dos entregadores aos profissionais da saúde, dos professores aos garis. Sob a ótica marxista, a mais-valia extraída dessas categorias é escandalosa: explorados como “heroísmo” em tempos de crise, são depois descartados como “custo” quando a bonança volta. A valorização do trabalho essencial não é caridade; é reconhecimento material de que sem eles, o sistema colapsa. O jornalismo, também essencial, deve ser a voz que expõe essa contradição.
Enquanto as grandes redações concentram-se em capitais, são os repórteres das mídias regionais que desvendam os crimes do agronegócio, a corrupção municipal e os conflitos de terra. O jornalismo segmentado é a trincheira contra o apagão de realidades. Marx já alertava: a centralização do capital é também a centralização da narrativa. Se queremos democratizar a informação, é preciso financiar quem está na linha de frente, longe dos holofotes das mídias hegemônicas.
As verbas publicitárias não são neutras. Escorrem para monopólios digitais e grandes veículos, enquanto mídias independentes lutam por migalhas. O equilíbrio desse fluxo não é uma demanda técnica – é uma batalha de classes. O capital manipula o tráfego de informação através do controle do dinheiro. Romper esse ciclo exige políticas públicas, cooperativismo midiático e pressão por distribuição equitativa.
Google e Meta são os novos senhores feudais do século XXI. Controlam o tráfego, definem o que é relevante e sugam a receita que deveria sustentar o jornalismo. Marx diria: é a apropriação privada dos meios de circulação. Combater esse monopólio não é opção – é sobrevivência. Redes alternativas, algoritmos transparentes e regulamentação antimonopólio são urgentes.
Coletivos, jornais comunitários e veículos independentes são a retaguarda da imprensa livre. Mas sem apoio estrutural, muitos morrem antes de crescer. Arregimentar essas vozes não é só um ato de solidariedade – é uma estratégia de guerra contra o pensamento único. A esquerda precisa entender: a comunicação é um meio de produção. Quem o controla, controla a consciência.
A desvalorização do jornalista profissional em meio à ascensão de “influenciadores” é sintomática. Enquanto uns seguem ética, checagem e responsabilidade social, outros vendem opiniões como mercadoria barata. Não se trata de elitismo, mas de demarcar território: informação não é entretenimento, ainda que seja sobre entretenimento. A luta aqui é ideológica – contra a mercantilização da verdade.
A precarização do jornalismo é projeto. Redações esqueléticas, PJotização e horas extras não pagas são a norma. O dissídio da categoria não é um favor – é o mínimo para evitar a escravidão moderna. Marx lembraria: sem organização sindical, o trabalhador é só um número na planilha do patrão.
A romantização do “jornalista 24h” serve só ao capital. A exaustão não produz qualidade – produz erro, alienação e adoecimento. A carga horária digna é uma bandeira anticapitalista. Se o sistema não nos deixa respirar, que o façamos pelo confronto. A jornada de trabalho estabelecida para os profissionais de jornalismo é de 5 horas por dia e 30 horas por semana. Esse benefício está garantido pela Consolidação das Leis do Trabalho (CLT).
O jornalismo que queremos não será presenteado. Será conquistado. Na luta por salários, contra monopólios e pela ética, estamos não só defendendo uma profissão, mas construindo um front na guerra pela hegemonia. Como diria Gramsci: “O velho mundo está morrendo. O novo mundo tarda a aparecer. E neste claror obscuro, surgem os monstros“. Que nosso jornalismo seja a luz que os expõe.
Na esteira da Revolução Industrial, Karl Marx cunhou um conceito que ainda hoje sangra nas redações: a mais-valia, que é a diferença entre o valor produzido pelo trabalhador e o salário que ele recebe. No jornalismo, essa equação perversa se repete, disfarçada de “vocação” e “amor à profissão”. Enquanto grandes conglomerados de mídia lucram com cliques, anúncios e assinaturas, repórteres e editores veem seus salários encolherem, suas cargas horárias incharem e seus direitos murcharem.
O jornalista produz valor real ao informar a sociedade, fiscalizar o poder, dar voz aos excluídos. Mas quem fica com o lucro desse trabalho? Não são os profissionais que passam noites apurando, escrevendo e revisando. São os donos dos grandes conglomerados de comunicação, os acionistas das plataformas digitais, os algoritmos que monetizam a atenção pública.
Antes, a mais-valia no jornalismo tinha limites físicos quando uma redação fechava em determinado horário e os profissionais iam para casa. Hoje, com a internet e a demanda por “conteúdo 24h”, a exploração se tornou ininterrupta. O jornalista é pressionado a produzir mais, mais rápido e de graça – afinal, “o jornalismo é paixão”, como dizem os patrões.
Enquanto isso: redações encolhem, mas a demanda por matérias aumenta; jornalistas são demitidos, enquanto freelancers sem direitos assumem suas funções; as plataformas digitais (Google e Meta) sugam a receita publicitária, deixando migalhas para quem realmente produz a notícia. É a mais-valia absoluta (aumento da jornada) e relativa (intensificação da exploração via precarização) agindo em conjunto.
Sob o capitalismo, tudo vira mercadoria, inclusive a informação. O que deveria ser um bem público transforma-se em produto, sujeito às mesmas leis de exploração que regem uma fábrica de sapatos.
Só que, no jornalismo, a mercadoria tem um paradoxo: quanto mais se produz, menos vale (notícias viram “commodities” descartáveis); quanto mais rápido, pior a qualidade (o furo importa mais que a apuração); quanto mais viral, mais vazio (o clickbait domina, o aprofundamento some). O resultado é um jornalismo esgotado, onde o trabalhador (repórter, editor, fotógrafo) é sugado até a última gota de criatividade, enquanto o lucro vai para quem nunca pisou numa rua em busca de uma pauta.
Se a mais-valia é inerente ao capitalismo, para lutar precisamos de sindicatos fortes para garantir pisos salariais, jornadas dignas e direitos trabalhistas; cooperativas de mídia com veículos geridos pelos próprios jornalistas, onde o lucro é reinvestido no trabalho, não no bolso de acionistas; apoio a mídias independentes como fontes alternativas que fogem da lógica do grande capital; regulação das plataformas, exigindo que Google e Meta e eventuais outros controladores de fluxo de informação paguem pelos conteúdos jornalísticos que monetizam.
O jornalismo é essencial para a democracia, mas não sobreviverá se continuar sendo tratado como linha de produção de uma fábrica de manchetes. Enquanto houver repórteres ganhando menos do que valem, enquanto houver veículos demitindo em massa para aumentar dividendos, enquanto houver plataformas digitais lucrando em cima do trabalho alheio, a mais-valia seguirá escancarada. Nossa única saída se dá por meio de consciência de classe e a certeza de que informação de verdade não é mercadoria – é direito.
Assessores de imprensa
No capitalismo contemporâneo, a comunicação tornou-se um pilar central para a reprodução das relações sociais e econômicas. Dentro desse cenário, os assessores de imprensa desempenham um papel estratégico, atuando como mediadores entre instituições, empresas, governos e a sociedade. No entanto, sua condição laboral muitas vezes reflete as contradições inerentes ao modo de produção capitalista, especialmente no que diz respeito à exploração do trabalho e à apropriação da mais-valia.
Sob a perspectiva marxista, o trabalho do assessor de imprensa é produtivo no sentido de que gera valor para o empregador, seja este uma empresa privada, um veículo de comunicação ou o Estado. Sua função envolve a transformação de informações em narrativas que sustentam interesses políticos e econômicos, seja por meio de releases, estratégias de imagem ou gestão de crises.
No entanto, como ocorre com outros profissionais da comunicação, há uma invisibilização do trabalho real. A pressão por resultados imediatos, a demanda por disponibilidade constante (especialmente em crises) e a precarização de vínculos empregatícios (como PJotização e terceirização) são mecanismos que intensificam a extração de mais-valia. O assessor produz além do necessário para sua própria subsistência, e esse excedente é apropriado pelo capital, que lucra com sua capacidade intelectual e relacional.
O assessor de imprensa está frequentemente submetido a condições de trabalho estressantes:
- Jornadas prolongadas (especialmente em períodos eleitorais ou crises corporativas);
- Cobrança por resultados intangíveis (como “engajamento” ou “boa imagem”);
- Desgaste emocional devido à mediação de conflitos entre a imprensa e seus contratantes.
Essa dinâmica gera um processo de alienação, onde o trabalhador não se reconhece no fruto de seu próprio labor. Sua atividade, que deveria ser criativa e estratégica, é reduzida a uma mercadoria negociada no mercado de trabalho, muitas vezes sem garantias de estabilidade ou reconhecimento adequado.
A superação dessa condição exige consciência de classe e organização política. Os assessores de imprensa, enquanto trabalhadores intelectuais, precisam reconhecer-se como parte da classe trabalhadora, sujeita às mesmas relações de exploração que operários e outros profissionais assalariados.
A luta pode contemplar sindicalização e associações de classe para pressionar por melhores salários, condições dignas e contra a precarização; denúncia da PJotização, já que muitos assessores são contratados como PJs para burlar direitos trabalhistas, uma prática que precisa ser combatida, bem como o fato de emitir notas fiscais para diferentes CNPJ do mesmo contratante impostor e sonegador de impostos; discussão sobre propriedade intelectual de quem se beneficia das ideias e textos produzidos pelos assessores; solidariedade com outros setores da comunicação, como jornalistas, redatores e social media, uma vez que a união fortalece a pauta.
A valorização dos assessores de imprensa não se dará apenas por melhorias individuais, mas por meio da construção de um projeto coletivo que enfrente a lógica do capital. Enquanto profissionais da comunicação, eles têm o potencial de articular discursos críticos, inclusive sobre sua própria condição, contribuindo para uma consciência revolucionária.
Como Marx destacou, “os trabalhadores não têm nada a perder, a não ser seus grilhões“. Cabe aos assessores de imprensa reconhecerem-se como parte dessa luta, transformando não apenas suas condições de trabalho, mas também o próprio discurso midiático que sustenta o sistema que os explora.