O movimento operário do final do século XIX e início do século XX foi
responsável por conquistas históricas que moldaram o mundo do trabalho como
conhecemos. Direitos como jornada limitada, descanso semanal, férias,
previdência e organização sindical não foram concessões espontâneas da
burguesia, mas resultados diretos da luta organizada da classe trabalhadora.
Tratava-se de um movimento combativo, com horizonte político claro, que
vinculava as condições imediatas de vida à necessidade de transformação
estrutural da sociedade.
Essas conquistas tiveram um efeito profundo: consolidaram uma
consciência sindical relativamente estável, na qual os trabalhadores
compreendiam que seus direitos estavam diretamente ligados à sua qualidade
de vida e à sua capacidade de organização coletiva. A luta econômica, nesse
sentido, era também uma escola de formação política.
No entanto, com a ofensiva neoliberal a partir do final do século XX, esse
cenário começou a se alterar profundamente. A reestruturação produtiva, a
financeirização da economia e a ofensiva ideológica contra o Estado e os direitos
sociais promoveram uma desmontagem sistemática das garantias conquistadas.
Ao mesmo tempo, novas formas de organização do trabalho emergiram,
fragmentando ainda mais a classe trabalhadora.
A introdução massiva de tecnologias digitais, longe de significar
emancipação, aprofundou as formas de exploração. O que se apresenta como
inovação frequentemente esconde mecanismos sofisticados de controle,
intensificação do trabalho e transferência de riscos para o próprio trabalhador.
Nesse contexto, a ideologia do “empreendedor de si mesmo” ganha força,
substituindo a identidade coletiva por uma lógica individualizante, na qual o
trabalhador passa a gerir sua própria precariedade como se fosse um negócio.
Esse processo produziu uma mudança significativa na forma como a
classe trabalhadora se percebe e se organiza. Setores inteiros passaram a atuar
sem vínculos formais de trabalho, sem proteção social e, sobretudo, sem
representação sindical efetiva. Trabalhadores de aplicativos, profissionais de
tecnologia da informação, comunicação e marketing digital são exemplos claros
dessa nova configuração.
Entretanto, é fundamental compreender que esses trabalhadores não
estão fora da classe trabalhador, ao contrário, ocupam uma posição
estratégica na reprodução do capital contemporâneo. São eles que operam,
alimentam e sustentam as infraestruturas digitais que hoje organizam a
economia global. Ainda que fragmentados, esses trabalhadores têm
demonstrado capacidade de mobilização, muitas vezes se organizando em
formas ainda incipientes de movimento.
Esse dado revela um desafio central: as formas tradicionais de
organização, especialmente o sindicalismo clássico, encontram limites para
dialogar com esses novos sujeitos. Isso não significa abandonar a centralidade
do trabalho como eixo organizador, mas sim repensar os métodos de
organização e intervenção política.
A questão central que se coloca é: como reconstruir a consciência de
classe em um cenário de fragmentação, precarização e hegemonia ideológica
neoliberal? Como inserir nesses trabalhadores a perspectiva do trabalho com
direitos, da organização coletiva e da luta política?
Esses setores enfrentam diretamente grandes corporações, muitas vezes
transnacionais, que operam por meio de plataformas digitais e algoritmos
opacos. Não há mediação, não há proteção, não há regulação eficaz. O
resultado é uma forma intensificada de exploração, marcada pela instabilidade,
pela ausência de garantias e pela captura permanente do valor produzido.
Por isso, o horizonte de organização desses trabalhadores não pode se
limitar à reivindicação econômica imediata, nem se restringir às formas
tradicionais de representação. Trata-se de uma luta que precisa assumir um
caráter político mais amplo, uma luta pelo poder.
Quando falamos em trabalho uberizado, estamos nos referindo a um
modelo de superexploração articulado globalmente, no qual plataformas digitais
atuam como intermediárias que concentram renda, controlam o processo de
trabalho e impõem condições sem qualquer negociação. Esse modelo não se
restringe ao transporte ou à entrega: ele se estende ao conjunto da economia
digital, incluindo setores altamente qualificados.
Diante disso, a luta pela soberania digital se coloca como uma tarefa
estratégica. Não se trata apenas de regular plataformas existentes, mas de
questionar o próprio modelo de propriedade e controle dessas infraestruturas.
É necessário avançar na defesa de plataformas digitais sob controle
público e popular, de redes e sistemas que garantam transparência, direitos e
distribuição justa da riqueza produzida. Trata-se de construir alternativas nas
quais os trabalhadores não sejam meros executores subordinados a algoritmos,
mas sujeitos que controlam os meios digitais de produção.
Organizar esses trabalhadores é, portanto, organizar o futuro da classe
trabalhadora. E isso exige coragem para romper com o formalismo, criatividade
política para construir novas formas de organização e firmeza estratégica para
recolocar no horizonte a luta pelo poder.
Sem isso, a tendência é o aprofundamento da precarização e da
fragmentação. Com isso, abre-se a possibilidade de reconstruir uma força social
capaz de enfrentar o capital em sua forma mais avançada.
O desafio está colocado. A história demonstra que a classe trabalhadora é capaz
de se reinventar. Cabe a nós contribuir para que esse processo avance no
sentido da emancipação.
Propostas para a organização da classe trabalhadora na era digital
Para que essa perspectiva avance, é necessário traduzir essa análise em um
programa concreto de ação política e organizativa. Nesse sentido, apontamos
alguns eixos estratégicos:
- Construção de novas formas de organização de base
Criar estruturas organizativas que dialoguem com a realidade dos
trabalhadores precarizados e sem vínculo formal, como associações, coletivos e
movimentos de trabalhadores por setor digital, superando os limites do
sindicalismo tradicional sem abandoná-lo, mas tencionando-o e transformandoo. - Sindicalização ampliada e híbrida
Impulsionar modelos de organização que integrem trabalhadores formais e
informais, com novas formas de filiação, representação e mobilização, capazes
de atuar tanto no local de trabalho físico quanto nas plataformas digitais. - Plataformas cooperativas e públicas
Desenvolver e fomentar aplicativos e infraestruturas digitais sob controle dos
próprios trabalhadores ou do Estado sob controle social, garantindo que o valor
produzido não seja apropriado por grandes corporações, mas distribuído entre
aqueles que efetivamente trabalham. - Luta por regulação e direitos no trabalho digital
Defender marcos regulatórios que garantam direitos trabalhistas aos
trabalhadores de plataformas: remuneração mínima, proteção social,
transparência algorítmica e direito à organização coletiva. - Soberania tecnológica e digital
Construir um projeto nacional que enfrente a dependência tecnológica, com
investimento público em infraestrutura digital, desenvolvimento de tecnologias
próprias e controle democrático sobre dados, redes e sistemas. - Formação política e reconstrução da consciência de classe
Retomar com força a formação política como elemento central da organização,
utilizando inclusive os próprios meios digitais para disputar a consciência desses
trabalhadores, enfrentando a ideologia do empreendedorismo e recolocando a
perspectiva coletiva. - Articulação internacional da classe trabalhadora digital
Diante do caráter global das plataformas, é fundamental construir formas de
articulação internacional entre trabalhadores, enfrentando empresas
transnacionais com estratégias também transnacionais. - Luta política e econômica
Vincular as lutas imediatas desses trabalhadores a um programa político mais
amplo, que aponte para a superação do modelo de exploração vigente,
articulando demandas concretas com a luta pelo poder e por outra forma de
organização da sociedade.